
A escola é o pólo das transformações sociais. Nenhuma mudança de aspecto social acontece se não passar pelos bancos escolares. Naturalmente que a educação para o trânsito não fica distante desta premissa.
Os acidentes de trânsito são responsáveis por inúmeras tragédias, transformam a vida das famílias, das pessoas envolvidas e têm um elevado custo social para a sociedade. A educação para o trânsito visa levar pedestres e condutores a refletirem sobre as medidas que são importantes a serem adotadas para minimizar estes impactos sociais, além de alertar as autoridades públicas que apenas fiscalizar não modifica o infrator a ser um cidadão consciente de seu verdadeiro papel no trânsito.
No atual estágio das relações urbanas notamos constantemente que o interesse individual atropela constantemente o coletivo.
Sendo a educação um processo continuo de conhecimento, consequentemente se trabalharmos na formação do cidadão vamos ter no futuro uma sociedade mais consciente de seu real significado no ambiente urbano e totalmente consciente de seus direitos e deveres.
Nesse sentido, a escola e o professor em sala de aula são os personagens fundamentais para que a mudança aconteça de forma efetiva.
Quando pensamos em trânsito geralmente nos vem a cabeça a figura do automóvel, mas pode vir também placas de sinalização, ou ainda podemos pensar em tragédias e geralmente o objeto principal que é a pessoa fica num plano secundário. Dificilmente pensamos no pedestre, no condutor, visualizamos o carro sem a pessoa dentro.
Ter o carro como ponto alto da conquista material, preocupação com a sinalização e com a fiscalização e o medo da violência habitam nossos pensamentos e nesse ambiente de contradições, o ser humano encontra dificuldade de ambientação no espaço urbano, considerando que quem possui um automóvel tem maior vantagem sobre o pedestre, e a este fica o reservado o que sobra.
O trânsito reflete as relações entre as pessoas. No entanto, as pessoas são diferentes, reagem diferentemente uma das outras na mesma situação, isso porque elas possuem diferenças de personalidades e suas necessidades individuais nem sempre estão no conjunto das relações coletivas.
Neste cenário, o que prevalece são as relações de poder e nesse sentido o respeito ao outro cidadão fica afetado, na medida em que o aspecto individual é mais importante que o coletivo.
Em sendo assim, podemos afirmar que educação de trânsito nas escolas é uma necessidade da sociedade, portanto, por que não disponibilizar espaço nas escolas para cuidar de um tema que nos mobiliza tanto?
Compete à escola estruturar as propostas pedagógicas vivenciadas pelos alunos em nosso cotidiano. Isso ajuda os alunos a construir o conhecimento da reflexão critica, levando-os a compartilhar idéias e debater opiniões.
Naturalmente que uma sociedade melhor estará sendo construída; o exercício das idéias e o respeito à opinião do outro estudante leva os alunos a uma reflexão sobre seu próprio pensamento, favorecendo assim, a participação social e o entendimento da realidade, procurando incessantemente as mudanças de atitudes e comportamentos como modo de melhorar a qualidade de vida.
Quando os alunos passam a discutir trânsito nas escolas, naturalmente os reflexos serão observados em suas relações familiares. Eles vão chamar a atenção de seus pais, quando observarem alguma ação que coloque em risco a segurança viária.
É importante que os professores tenham conhecimento da cidade onde estão e principalmente na comunidade onde a escola está inserida. Não é possível separar o tema trânsito das questões urbanas.
Em São Paulo, por exemplo, temos situações bastante distintas nos bairros da cidade. Uma escola no extremo da Zona Leste tem uma realidade diferente de outra num bairro melhor estruturado. Projetos de urbanização, focos de pessoas, movimentação de carros e ônibus são diferentes nos diversos bairros da cidade, como em qualquer outra cidade, ou seja, é necessária a prática de sair da situação macro para a micro, portanto, é primordial sair do entendimento geral da cidade até a própria comunidade.
Não se pode pensar numa educação de trânsito igual para toda cidade. Evidentemente que, conceituar comportamentos são iguais, como por exemplo, olhar para os dois lados da via antes de atravessar; porém, quando os alunos concluem que é mais seguro atravessar na faixa de pedestre, eles também podem concluir que na sua rua, ou na rua da escola não existe tal sinalização; em sendo assim, que orientação a educação de trânsito pode fornecer? Por isso que é fundamental o conhecimento da cidade e a partir da realidade de sua comunidade, construir com os alunos comportamentos seguros a partir das práticas vivenciadas.
Recentemente estive conversando com uma professora de uma escola num bairro muito carente de São Paulo, na Zona Sul, que me relatou “que na sua escola não adianta ensinar somente os alunos a atravessarem na faixa de pedestre ou acionar a botoeira do semáforo de pedestres, porque em sua comunidade esses dispositivos não existem”. O que ela fez? Reuniu os alunos, os pais e a direção da escola e debateram a situação. Dos debates surgiram várias idéias e as melhores foram colocadas em práticas. Segundo relato da própria professora os atropelamentos diminuíram na comunidade e a possibilidade de um acidente acontecer também, isso porque a maioria dos condutores que circulam no bairro são moradores e entenderam a situação.
A escola não deve se isolar do Poder Público. Ou seja, ela deve procurar os caminhos competentes e expor sua situação, ainda que a solução seja demorada. A escola deve ser o centro de referência da construção do conhecimento.
Portanto, quando a escola leva para seu meio uma questão tão relevante como é o trânsito, ela estará não apenas abreviando sua relação com a comunidade, como também abrindo importante espaço para a melhoria de qualidade de vida de todos. E o mais importante: colocará em debate o modo como circulamos, estimulando o tempo todo o entendimento das relações sociais, de suas condutas e dos meios de inclusão e exclusão construídas diariamente
Referências bibliográficas
RODRIGUES, Juciara (Coord.). Rumo à Escola: livro do professor. Brasília: Ministério da Justiça/DENATRAN, UNESCO, 2002.
Morin, Edgar – Os setes saberes necessários à educação do futuro
RODRIGUES, Juciara (Coord.). Rumo à Escola: livro do professor. Brasília: Ministério da Justiça/DENATRAN, UNESCO, 2002.
Morin, Edgar – Os setes saberes necessários à educação do futuro

Um comentário:
Ari, muito bom o texto. E é bom saber que você descobriu como utiliar o blog.
Abraços
Milton
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